quinta-feira, 9 de março de 2017

Heidegger, en passant

Martin Heidegger, o grande filósofo do século XX que vivia como um camponês, dizia que os trabalhadores de comunidades rurais tem uma "compreensão instintiva" sobre sua própria humanidade e que os habitantes de grandes centros urbanos tendem a perder o contato com sua própria individualidade.
Forçados a se identificar por padrões de massa, sofrem fortes ansiedades, vivendo, nos termos de Heidegger, vidas "inautênticas".


"Quando a tecnologia e o dinheiro tiverem conquistado o mundo; quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com rapidez; quando se puder assistir em tempo real a um atentado no ocidente e a um concerto sinfônico no Oriente; quando tempo significar apenas rapidez online; quando o tempo, como história, houver desaparecido da existência de todos os povos, quando um desportista ou artista de mercado valer como grande homem de um povo; quando as cifras em milhões significarem triunfo, – então, justamente então — reviverão como fantasma as perguntas: para quê? Para onde? E agora? A decadência dos povos já terá ido tão longe, que quase não terão mais força de espírito para ver e avaliar a decadência simplesmente como… Decadência. Essa constatação nada tem a ver com pessimismo cultural, nem tampouco, com otimismo… O obscurecimento do mundo, a destruição da terra, a massificação do homem, a suspeita odiosa contra tudo que é criador e livre, já atingiu tais dimensões, que categorias tão pueris, como pessimismo e otimismo, já haverão de ter se tornado ridículas." – Martin Heidegger, (1889-1976), em Introdução à Metafísica







PS: sua ligação com o partido nazista durante a ascensão de Hitler não retira os méritos de sua filosofia, porém nos mostra mais uma vez que a ambição pessoal, xenofobia e confusões politicas podem tornar nebulosos os mais brilhantes cérebros.
Curiosamente Heidegger teve um affair com a filósofa judia Hanna Arendt... 

sábado, 25 de fevereiro de 2017

A marchinha headbanger

Feriado complicado para um velho headbanger.
O tempo faz coisas estranhas... quem diria que eu viraria um clássico...

Nesses dias "complicados" me refugio nos estudos e na boa música. Quase sempre lembro do jovem Ramon.

Nas minhas épocas de empreendedor (quando eu achava que era possível casar a moralidade - e portanto o bem comum - ao empreendedorismo) eu morava no Brooklin em sampa.
Precisando de um estagiário minha heavy irmã e na época meu rockunhado me indicaram um cara diferente.

Íamos almoçar num "por kilo" numa travessa da Av Santo Amaro, onde trabalhava um moleque cabeludo que atendia e que era sobrinho da proprietária.

Nessa época já não conseguia muito bem selecionar as pessoas por sua "técnica" ou "produtividade" apenas. As pessoas para mim, antes de mais nada, eram pessoas e fatalmente fariam parte do meu cotidiano.

Depois de umas tentativas frustradas com os "convencionais" conversei com o Ramonzinho.
Brincamos por muitos anos que a entrevista se baseou em que era o elemento clássico do Deep Purple ou qual era o vocalista mais adequado pro Rainbow, e por aí vai.

Enfim, lá veio o menino cabeludo que arranhava um baixo com seus 19 anos, recém formado num curso técnico qualquer trabalhar comigo.
Acho que era muito papo e pouco trabalho.

Muito papo bom.

Viramos amigos e ele virou o mascote da turma de "velhos degenerados".
No fim do estágio ele alçou voo depois de um concurso público.
Continuamos a amizade, com noitadas de rock, biritas e umas "coisas a mais".

Conversávamos bastante e fui o alertando sobre certo deslumbre quando se ganha dois tostões a mais e quando se arregala os olhos diante de um suposto poder e "seriedade" na vida profissional.

Fui convidado pro seu casamento.
Muitos moleques em volta, parentes e eu sendo apresentado como "o sujeito que ensinou tudo o que eu sei".
Ficava feliz e envaidecido, porém já sabia que mesmo o que eu conhecia não pertencia a mim, mas aos outros que me ensinaram (anos mais tarde fui tendo a confirmação mais embasada disso - e viva Sartre!).

Após o casamento ele começou a se sobrecarregar de trabalho e "seriedades" da vida,
Muito me preocupava isso. Não era o seu perfil,e ao meu ver, o de ninguém.
Cortou o cabelo e as coisas começaram a "entrar nos eixos". Não o dele nem o da vida humana.

Ramonzinho morreu de enfarte fulminate aos 29 anos deixando um filho pequeno.

Nesses dias em que penso em música, história, princípios e moralidade lembro muito do meu estagiário, amigo e talvez um afiliado que nunca tive.

A vida acaba de maneiras abruptas. Sempre.
Como disse  Carlos Heitor Cony, "somos todos terminais desde que nascemos".
A sua existência foi abreviada, e diferente dos meus amigos tecnicistas eu creio (dadas as evidências) que não foi a "saúde ruim" apenas que o tomou das pessoas que o amavam. A sociedade perversa que busca a "ferramenta de trabalho" e consumidor ideal foram cruciais no processo.

Não deu tempo de te dizer meu jovem amigo, mas você também me ensinou coisas.
A principal foi a de que realmente eu não sirvo pra lucrar sobre ninguém, nem explorar as pessoas e muito menos as ver como algo que intrinsecamente não tem valor mais importante que as "competências técnicas".

Não preciso de crendices para saber que você está em todos que o conheceram.
Sartre (entre outros claro)  nos mostra de maneira mais bela.

Um brinde a você meu jovem amigo!






sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Novidade ou eu apenas acho que o mundo começou comigo?

Nós somos criaturas bastante  bizarras.
Dado a nossa existência curta e nossa ignorância ampla, achamos sempre que somos cheios de criatividade e ideias inovadora, ainda mais no momento histórico onde "eu acho que" (sem maiores lastros) virou algo a ser valorizado.

Bom, se você  acha algo bizarro e saído "do nada" uma figura insólita (e nem por isso menos perigosa e nefasta) como Donald Trump assumir o poder da mais influente e poderosa nação do mundo, acho que apelas à história traz respostas... e péssimas perspectivas...

Indo direto ao ponto, desde que resolvi estudar economia (muito mais a política econômica e a moralidade derivada) uma coisa me deixava curioso: conhecer um pouco mais dos "primos ricos".

Como já li muita coisa do Paul Krugman (professor em Princeton, Nobel em economia, phD pelo MIT, colunista e escritor), achei na sua lista o "A consciência de um liberal". Muito bom, vale a pena pra qualquer um queira um panorama da política econômica dos EUA a partir do fim do século XIX.

Não é minha pretensão fazer uma crítica ou resenha do livro. Me considero muito ignorante para isso.
Mas acho que vale muito a pena nessas épocas "Trumpiquescas" e de devaneios ultraliberais no Brasil.

Basicamente prof Krugman demonstra como os EUA se tornou (principalmente nos Trente Glorieuses) o país das oportunidades e de como ele deixou de o sê-lo desde a década de 80.
Com dados muito consistentes prof Krugman derruba vários dos mitos ultra liberais (ou neoliberais se assim preferir) do estado mínimo, mitos da austeridade, redução tributária, etc.

A parte econômica (em especial as "receitas para grandes compressões" ou o New Deal norte americano) pode ser facilmente avalizada, por exemplo, com as obras de Joseph Stiglitz, Amartya Sen e brilhantemente por Thomas Picketty, mas a parte que mais me interessou foi a política mesmo.

Por exemplo, alguns se surpreendem com medidas aparentemente mais progressistas e liberais para um republicano que o governator Schwarzenegger tomou em sua época à frente do estado da Califórnia, e recentemente com suas críticas a Trump (republicano, homofóbico, sexistas, truculento, racista, egocêntrico, narcisista...), mas prof Krugman mostra que nem sempre republicanos e democratas estiveram em lados tão opostos.

Usa por exemplo o presidente Eisenhower como exemplo de republicano que ainda manteve certos programas sociais, etc. Cita que inclusive, a lei que aboliu a escravidão nos EUA foi aprovada por republicanos (os interesses obviamente não deixaram de ser citados).

A polarização republicana foi basicamente resultado de uma agregação de forças conservadoras em especial as elites sulistas (a versão do 'coronezinho' deles), empresários e grandes executivos, fanáticos religiosos e outros lunáticos perigosos, que, com o poder econômico, cooptaram estrategicamente a grande mídia e até mesmo partes da elite acadêmica (os think thanks).

Esses "organismos" (os think thanks) aglutinam toda a espécie de centro de influências sociais legais ou não, plantando notícias falsas e boatos, agraciando pesquisadores se os "resultados científicos" ficarem no interesse conservador, chantageando políticos e manipulando eleições.

Sim, manipulando eleições.
Prof Krugman nos traz uma série de fatos a respeito de como a prática de manipular eleições nos EUA é antiga e praticamente institucionalizada.

A saúde universal mereceu especial atenção, antecipando (o livro é de 2008 se eu não me engano) a derrubada do Obama Care e esclarecendo porque é muito importante para os conservadores que a saúde nunca se universalize nos EUA (eles chama de "saúde socializada" para reforçar o "perigo comunista"), motivos que vão além dos poderosos cartéis das indústrias médicas e farmacêuticas e da corrupção generalizada (sim, lá também tem!).

Assim como outros economistas sérios e imparciais (dentro do que a ética nos permite ser) ele mostra que os EUA se tornaram um país oligárquico novamente, com altos índices de violência, queda no nível escolar, achatamento da classe média e escabrosa desigualdade social, tudo basicamente resultado de redução tributária, ausência de controle (mesmo que seja apenas o moral) dos grandes salários, perseguição aos sindicatos e às forças organizadas ligadas ao trabalhador e à total (ou quase) ausência de um estado de seguridade social.

Apenas para bater na mesma tecla, de modo sucinto porém enfático, usando literalmente as palavras do prof Krugman: "as sociedades de classe média não surgem automaticamente enquanto uma economia amadurece, elas tem de ser criadas por meio da ação política".
 
O livro tem muita coisa boa e é recheado de ótima bibliografia. Vale muito a pena para nós cucarachas, os "primos pobres", que estamos adotando esse discurso de satanização dos impostos, do estado mínimo, da suposta meritocracia, da polarização irracional, da truculência e da xenofobia, e permitindo exatamente a mesma coisa que "lá": que grupos religiosos, ultraconservadores, empresariais e os barões de sempre se aglutinem e reinem sem questionamentos.

O capitalismo é como o 'Banco Imobiliário' (versão eufemística do nome original Monopoly): ele só funciona mal e porcamente quando um forte "juíz" (por definição aquele que deveria zelar por todos e a quem se outorga até mesmo a exclusividade da violência: o Estado) organiza, equaliza as forças e redistribui as riquezas. Sem o "juíz" ou se ele for o próprio jogador... bem, é o que estamos vendo...

Pra divertir a reflexão segue um doc do Michael Moore (apesar do jeito "Moore" de ser, seus docs são sempre interessantes):




A Corporação é um documentário premiado canadense. Esse vai de "brinde"... :o)
Você imagina a origem da "pessoa jurídica"? Então veja... é sinistro...



quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Meu amigo Zygmunt

Em dezembro encerrei minha jornada no facebook.
Curiosamente próximo à data de falecimento do grande sociólogo polonês Zygmunt Bauman.

Os motivos são a avaliação prática, ainda que rasteira, do 'mundo líquido' que Bauman criou para definir a modernidade (ou pós modernidade como queiram).

Mesmo as poucas pessoas que conheci pessoalmente da dita "rede social", a sua maioria esmagadora são os bem descritos por Bauman, com uma ou mais de algumas de suas características: descartam pessoas e grupos com a facilidade de um 'delete'; se acham livres para emitir opiniões mal ou nulamente fundamentadas e não querem ouvir críticas; são irresponsáveis para com o outro e tem ética questionável; tem um discurso em dessintonia com a prática.

Uma outra coisa que me deixou abismado foi a completa subserviência a sistemas verticalizados, mesmo que em pessoas com aversão à autoridade tradicional: sem tocar o gado, ele se dissipa no pasto...


Foram quase 2 anos tentando... não posso ser acusado de não tentar...

Não vou me estender nisso. É melhor uma pessoa com mais conhecimento que eu.
Segue uma palestra do professor Lendro Karnal sobre o 'mundo líquido'.




Quem quiser entender porque me incomodo com "afetuosinhos" que defendem sistemas amorais  ou simplesmente "seguem sem questionamentos" (Hittler devia ser um cara muito amável com família e amigos, assim como Stalin, Trump, o piloto do Enola Gay ou aquele seu amigão do peito que defende truculências, supostas meritocracias e amoralidades...), sugiro enfaticamente a leitura de Hannah Arendt sobre a banalidade do mal: aqui tem uma análise muito boa.

Devemos pois continuar a busca, como Diógenes e sua lanterna atrás de um "homem honesto" ou Sócrates vagando em miséria atrás de um "homem sábio"*? Se antes do facebook arbitrariamente imaginava que a busca seria de 1 em 1 milhão, agora acho mais fácil ganhar na Mega-Sena...





* Sócrates gerou enorme antipatia buscando um "homem sábio". Questionar o sábio não provoca desconforto, mas questionar o tolo sim, pois o desnuda frente a sua ignorância e isso, importante que se frise, NÃO significa de maneira nenhuma que o questionador se presuma "mais sábio" que o questionado.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Admirável mundo novo



Nova translação da Terra e velhas tristezas...
Seu Tino é um senhor de 70 e muitos anos, negro, trabalhador e que sempre foi muito forte. Nos últimos anos claro a saúde está meio debilitada, a coluna já não ajuda e por aí vai.

Muito gentil e honesto, faz parte daquela leva de brasileiros marginalizados, sem educação formal e muito menos especialização alguma.
Perambula por aí atrás de serviços variados como capinar um terreno, limpar um jardim, cavar uma piscina... sim, o velho abriu uma piscina sozinho na pá!

Como todo explorado, principalmente sendo negro, sua postura é sempre humilde e resignada.
Às vezes o contratamos para algum serviço aqui em casa, assim como minha irmã o faz na casa dela. Sempre frisamos que ele deve ter o tempo dele sem prejudicar sua saúde e sempre permitimos que ele use o banheiro e tome água fresca filtrada, assim como à tarde o servimos algum lanche.

Todos os nossos prestadores de serviço são tratados com respeito e dignidade, sejam eles jardineiros ou advogados. Aliás, a hora da vida humana de ambos tem o mesmo valor.

Estranho alguns diriam.
Paternalista diriam outros.

Tratar com respeito e humanidade alguém passou a ser sinônimo de “favor”, e conseguir o ”melhor negócio” ainda que às custas de um pobre coitado virou “natural”.
Ele capina quase um terreno inteiro de um lote padrão de 300 m2 e pede 20 Reais... tem gente que aceita ou pior, pechincha!

Nenhum ser humano com um pingo de moralidade deveria aceitar pagar tão pouco para alguém trabalhar tão duro.

Alguns disparam o chavão neoliberal do “mercado” e da “oferta e procura”... com certeza Adam Smith (o papa dos liberais e neoliberais, que antes de mais nada era professor de moral – vide seu livro “Princípios da moralidade humana” que, segundo ele mesmo, nunca deveria estar separado do famoso “A riqueza das nações”) iria achar minimamente descente isso.

Pagamos 100 Reais ou mais para esse um ou um dia e meio de trabalho duro.
Ninguém aqui é rico, muito pelo contrário. Nossa vida é bem simples por opção.

A moral, simplificando, é o constate questionamento de “o que eu NÃO DEVO fazer ainda que me seja permitido” e “o que eu DEVO fazer ainda que eu não ganhe nada em troca e nem me seja solicitado
.
A essas questões, que devem permear constantemente a mente humana, soma-se a sua conduta para com o outro como indivíduo e como coletividade.

Daí logo se vê que “a lei” é apenas uma técnica. Uma ferramenta quando toda educação falhou. A última e falha cartada de uma sociedade decrépita.
A técnica quando substitui a moralidade solapa todo o humanitarismo de uma civilização e torna nebulosa – propositalmente - a diferença entre, parafraseando Amartya Sen, a liberdade formal e a liberdade substantiva. Pois a primeira depende da técnica – lei – e obviamente estará sempre a favor dos que podem pagar e a segunda depende da moral humana. Não é apenas uma coincidência que o neoliberalismo fomentou a extinção da moral, pois o que sobrou está sempre a favor de uma minoria que agora nem se freia diante de uma conduta imoral ainda que legal.

Mas voltando ao seu Tino, muita gente o explora na vizinhança.
É um misto mixo de poder e oportunismo, de uma ganância pífia, de uma naturalização do ganhar a qualquer custo.
É o discurso e o modus vivendi naturalizado dessa sociedade, que também defende as chacinas, a criminalização no uso de psicotrópicos ilegais, a criminalização do aborto, a culpabilidade feminina no estupro, das diferenças de gênero e raça e demais insanidades e truculências.

Uma vez perguntaram ao Roger Waters (ex vocalista, baixista e e genial compositor do Pink Floyd) se ele era “infeliz”. Ele achou a pergunta patética e disse que sua vida era ótima e sua família fantástica, mas que isso não o tornava impermeável à desgraça humana e nem o impedia de se colocar no lugar do outro.

Ter momentos de alegria devem permitir momentos de tristeza e reflexão, por isso não acredito em alguém que seja feliz. Nós podemos ESTAR felizes, pois a emoção humana não é uma condição de SER e sim de ESTAR.

E não posso considerar humano alguém que não se incomode com uma situação tão comum dos Tino's do mundo. Evidentemente esse ‘incomodar’ deve ser profundo e não palavras vazias ao vento. É a sua reflexão e a postura de vida diante disso.

Por isso que o mínimo que considero descente é o consumo mínimo, assim como o ganho mínimo. Claro, 'mínimo' é algo subjetivo, mas qualquer um que se questiona não sairá muito de uma espécie de "média comum da decência", pois o consumo estimula a exploração, tanto a humana quanto a dos recursos naturais, sua ligação com esse ideal mesquinho é óbvio.

E sim, qualquer um que ostente luxo num mundo tão desigual é um canalha, legalista ou não.
Basta saber que as valorações de um ou de outro são completamente arbitrárias e nada tem a ver com merecimento, muito pelo contrário, os acúmulos são sempre às custas direta ou indiretamente de uma grande massa de Tino’s.

Pensar nessa composição social e não ficar deprimido ou é esquizofrenia ou a mais pura burrice canalha.

O recém falecido (uma perda enorme para uma época tão carente de cérebros funcionais) filósofo Zygmunt Bauman uma vez respondeu a um jornalista quando questionado sobre o tema, que era um pessimista no curto prazo e um otimista no longo prazo. Claro, é uma maneira eufemística de responder a uma pergunta tão tola, pois o curto prazo é a nossa existência e o longo prazo... bem, não é nada.

E a “Trumpinização” do mundo corre solta... em 2018 com certeza algum neoliberal fundamentalista do estado mínimo estará em nosso executivo federal.
Enquanto isso resta-nos auxiliar um ou outro Tino do mundo e não fomentar essa canalhice generalizada.




quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Mea culpa, debates e a praga zen

Este fim de ano fiz uma reflexão a cerca de minhas posturas perante os amigos incentivado por críticas (não tenho nada contra boas análises, pois 'crítica' é análise) obtidas indiretamente, vulgo “me disseram que”.
Coincidentemente li há pouco um texto do Alex Castro sobre “As prisões” (no caso “A prisão do conhecimento”).

Suas colocações a cerca do pensamento narcísico,  repressões e ideologias educacionais são muito pertinentes e amplamente “aceitas” e “debatidas”.

Mas a visão buNdista da troca de saberes é bastante suspeita.
O budismo, apesar de lindos ideais (toda religião – ainda que muitas não se definam como religião por questões semânticas - tem a sua parte boa), não escapa de sua origem de doutrina pacificatória e de controle de massas. Basta estudar a história, de preferência por autores não budistas, claro.

Não opinar, não debater, etc, também é uma posição política e evidentemente moral. O moralismo pode se manifestar na não manifestação também.

Aliás, a mesma educação conteudista que reprime o livre pensar é, obviamente, a que não educa para o debate, já que, como lembram meus amigos filósofos da educação, os professores educados nesse sistema tendem a usar a autoridade e não a retórica para um diálogo com seus alunos.

De qualquer modo, admito que não sei exatamente (e provavelmente nunca saberei) como manifestar certas posições sem parecer arrogante ou impositivo. Claro, tento manter isso em mente e tentar me refinar ao longo da vida.

Toda filosofia nasceu da retórica.
Não criamos nada e nossa opinião é meramente um aglomerado de “outras pessoas”, portanto, como crescer (no sentido intelectual e de vida) sem trocar ideias?
“Mas quer ser livre, como outros desejam uma coleção de selos. A liberdade é seu jardim secreto. Sua pequena conivência para consigo mesmo. Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, razoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida, feita de inércia, e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?” – Jean-Paul Sartre, A idade da razão.

É evidente que sabendo disso, a premissa de “não ter certeza” está (ou deveria estar) sempre presente.
Só sei que nada sei, e o fato de saber isso me coloca em vantagem sobre aqueles que acham que sabem alguma coisa.” – Sócrates

Por outro lado, como questionar sem ofender, ser violento ou parecer arrogante?
Ninguém sabe a resposta, até porque, a interpretação do outro não está sob nosso controle.

O debate, não impositivo, não competitivo e não moralista é a base humana da formação de conhecimento. Se algum antropólogo achar uma “tribo de um só” que nasceu sozinho e viveu isolado com alguma espécie de “conhecimento mínimo” por favor me avisem.
Sem o exercício do diálogo (ou debate, ou discussão, como queiram) só sobram as polarizações raivosas e um mar de malas zen budistas.

O fato é que realmente me empolgo com determinados assuntos e determinadas descobertas e saio como uma criança que ganhou uma bola nova de encontro a meus amigos para partilhar.
A partilha invariavelmente será julgada de várias maneiras alheias ao nosso objetivo.
Alias, julgar é uma condição humana ancestral que nos permitiu sobreviver. Imaginem uma neandertal andando numa mata fechada quando de repente ouve um ruído desconhecido? Bem, os que não prejulgaram em sua maioria, eufemisticamente falando, não propagaram seus genes.

O problema não está no julgar, mas na postura cristalizada de não refazer esse julgamento com base em novas perspectivas, portanto, o julgamento, como qualquer outra posição, é uma não certeza.

Partilhar as ideias será quase sempre um debater.
Não quero ter razão, até porque, quem tem razão (no sentido de ter certeza) é justamente o cristalizado que desejo evitar.
O fato de muitos se sentirem intimidados e “acharem que” sem mais argumentos, foge o meu controle, apesar de, como eu disse, continuamente tentar achar meios de expor alguns achados sem parecer impositivo.

Sempre quis partilhar pequenas descobertas e pequenas conquistas de serenidade com meus amigos não no intuito de “apresentar a receita”, mas sim no sentido de demonstrar que sempre podem haver alternativas e muitas vezes elas estão longe do “natural e óbvio” (entenda como ideologia).

Mas sim, preciso tentar ser mais delicado, pois mesmo uma 'não posição' de ”será que?” para um ouvido cristalizado e despreparado para uma troca civilizada de ideias gerará reações desproporcionais.
De qualquer modo tenho que analisar o excesso de discurso/debate e me esforçar para fugir das tendências narcisistas comuns no mundo atual, afinal, como eu escaparia ileso disso?

Somos humanos, vamos evitar essa praga das “não-posições zen” que estão na moda (anteviu bem André Comte-Sponville). Não precisamos ser violentos, maniqueístas e cheios de certezas, mas é imperativo para a sociedade que aja debate e, devemos admitir, sermos confrontados/questionados gera desconforto e reações emocionais.

É gafanhoto, não quer alterações no seu “equilíbrio energético” tome sempre seu Rivotril e/ou converse apenas com o ascensorista ou seu pet, ainda assim...


domingo, 11 de dezembro de 2016

Afinal, como foi o downsizing de vida?

Sempre morei em grandes cidade.
Nasci em Porto Alegre, fui para São Bernardo do Campo e de lá para São Paulo.
Já tive ilusões acerca das metrópoles. Normal. Jovem, pouca experiência, fatalmente pouca leitura/conhecimento e com uma imagem (não criamos nada, no máximo assimilamos com um toque pessoal... que também não é nosso! rs, e viva Sartre!) fantasiosa a cerca delas.
Com o mínimo de manutenção do senso crítico e boa dose de racionalidade, a ilusão começa a ruir com o tempo.

 Blade Runner
 
Beijing

São Paulo

Tirando os que são fanáticos por quase diariamente ir a “baladas”, centros culturais variados e às mecas das comunidades estéticas (os shopping centers e similares), o único motivo para alguém continuar nelas é a zona de conforto. Ah, sim, esqueci os crentes na "medicina da vida eterna".
Lembrando que zona de conforto é estar e querer permanecer no conhecido, ter resistência à mudança, etc. É o conforto do conhecido, o esperado, não necessariamente o “bom”.
Escrevi “quase diariamente” pois na “frequência normal” posso ir tranquilamente para a crazy sampa.

Há também os que necessitam passar desapercebido, coisa mais complicada em cidades pequenas dada a jequice das mesmas, onde o moralismo é maior. Por exemplo os homossexuais que são mais discriminados... se bem que talvez menos frequentemente espancados e assassinados... bem, essa é outra discussão...



Nunca havia morado em cidades pequenas, só estudei e avaliei teoricamente a cerca disso.
Minha primeira análise lógica foi: menos pessoas menos incômodos.
As demais vantagens estariam numa zona um pouco “menos experimentada”: mais humanidade, mais natureza, e outras suspeitas a serem confirmadas.
A expressão “menos experimentada” foi utilizada pois morar é bem diferente de ser um turista.

Apenas pelo argumento lógico eu já havia aceitado que necessitava tornar prática a ideia.
Mudando, foi tiro e queda: silêncio, ar mais limpo, água mais pura, facilidade de locomoção e mais espaço.
Importante frisar que nunca busquei o paraíso perdido, a perfeição platônica ou até mesmo a fuga de meus próprios problemas internos. Acredito tanto nessas coisas quanto em Papai Noel.
Bucolismo Star Wars by Thomas Kinkade

A parte suspeita foi se confirmando com o dia a dia e, claro, com a minha mudança de ritmo.
A primeira coisa é o desarme, ou seja, a redução ou eliminação da violência latente, aquela que só percebemos quando ficamos “desintoxicados” das metrópoles.
Agora quase ninguém ao redor está com uma faca na mão e outra entre os dentes.
As pessoas cedem passagem com sorriso, deixam você entrar de carro numa rua, puxam papo tranquilamente, etc.

Aliás, esse último quesito é muito interessante.
Eu mesmo não gostava dessas coisas. Prezava pela tal “privacidade” ou “indiferença”.
Estar desarmado e menos violento faz com que gostemos desse preocupar, pois no fim, um papo furado é um olhar para outro ser humano e até mesmo um se preocupar com o outro.
Facilmente por aqui  entro numa adeguinha pedindo uma aguardente (cachaça mesmo) específica e um senhor de 80 e tralalá puxa um papo sobre as boas cachaças e me indica um local e uma marca para experimentar.

Uma coisa de aparente insignificância que transforma uma simples compra, numa experiência social acolhedora, de troca de saberes e ilumina seu dia. Para os metroneuróticos uma “invasão de privacidade”.

Meus amigos me perguntam, mas e o custo de vida como pode ser mais barato? Uma geladeira por exemplo não tem o mesmo preço aqui ou aí?
Realmente os bens duráveis (no moderno capitalismo e sua obsolescência programada, não existe nada mais durável) são praticamente iguais, fora que em tempos de internet...

Mas em outras coisas acontece algo que eu apenas teorizava.
Viver em cidades mais humanas e com mais contato com a natureza (na bruta, não um gramado vitoriano) nos torna menos ansiosos, menos apressados e, associado ao interessante fato de que a pressão sobre sua imagem diminui drasticamente, você naturalmente tem menos impulso ao consumo.

Não é um dado científico, mas todos os que eu conheço que fizeram essa transição tiveram essa mudança em graus variados.
O outro dado crucial é a limitação do poder econômico.
Numa grande rede de supermercado, em que se cobra até pela posição na gôndola e ele é que estabelece o prazo de pagamento, como um pequeno produtor entra?

Exato, nunca.

Não existe livre iniciativa no capitalismo exceto para quem tem a chancela de livre, ou seja, para quem já está entre as minorias (os angstron-negócios estão na categoria dos desprezíveis - por experiência própria - vivem dos restos dos grandes e portanto, tem um “teto bem baixo para voar”).
Então você chega num mercado menor e encontra, por exemplo, o mesmo pão pela metade do preço. Claro que seus preconceitos (cuidadosamente incutidos por grandes corporações) devem ser jogados pela janela para que você experimente uma marca desconhecida de um pequeno produtor local ou não.

Também é muito comum encontrar vegetais de produtores locais, inclusive em variedades que nunca havia visto, por preços muito menores e às vezes orgânicos pelos simples fato de serem caipiras e não simplesmente porque são dotados da chancela do marketing.

Apesar de não ser nativa (foi trazida pelos portugueses do Caribe), essa banana foi muito bem por aqui e é uma delícia! Claro, como não é tão "lucrativa"...

Às vezes até o escambo aparece!


Quando visito sampa (desacostumei total - isso é rápido) sinto aquele ar pesado, aquele cheiro horrível, aqueles milhares de decibéis de inúmeras fontes diferentes, aquelas pessoas violentas (só morando fora pra entender, pois afinal, eu era uma delas), aquela agressividade latente em tudo, aquelas pessoas que se medem de alto a baixo, aquela pressa injustificada para morrer, aquele aperto... nem sei mais... só sinto vontade de fugir de lá.

Claro que muitos amigos falam de suas preferências por essa ou aquela cidade, mas na maioria das vezes é uma preferência feita por causa de um valor adicionado por intermédio de uma memória afetiva, ou seja, muitas vezes é uma ficção.

Não tenho apego a essa ou aquela cidade, tenho apego às boas pessoas que me cercam, por isso nada mais natural do que ficar chuchando meus amigos para virem para cá, partilhar da comunidade, ainda que nos moldes tradicionais do lote, propriedade privada, etc.

Além da família próxima, minha madrinha já comprou casa aqui e uma amiga da patroa e sua mãe já estão no processo. 👊😁
Fora que estou "negociando" com uns amigos do ABC. 😇
Porém não tenho grandes expectativas com ninguém. Entre crer que nascemos morais (Rousseau) ou imorais (Hobbes), o mais plausível e de fácil demonstração é que nascemos amorais, portanto, também "ruins" sob o ponto de vista de uma vida social justa (Hobbes vence por aproximação) e quando associada a ignorância monstruosa da maioria esmagadora, a realidade e a perspectiva são péssimas...


Visitei várias cidades antes de vazar (adoro essa expressão!) de sampa, a maioria muito interessante para os objetivos que eu almejava, mas acabei escolhendo uma em que eu já tinha algum suporte.

O suporte de alguém torna a mudança menos crítica e menos insegura, nem que seja apenas do ponto de vista emocional, o que por si só já é muito importante, mas em geral esse suporte torna aquela ambientação muito mais rápida, coisas como a indicação do arquiteto com bom custo benefício, do pedreiro caprichoso, do mecânico de confiança, da quitanda com bons preços e ótima qualidade e por aí vai.

Uma coleção de pequenas coisas que é muito mais importante do que pensamos e, no fim, operacionalizando aquela coisa crucial das compras coletivas, da carona solidária, da troca constante de saberes, lazer em grupo, etc.

Por que se pulverizar quando há meios pragmáticos de se agrupar?

Por que ainda sempre nos sentimos tentados a dividir e a “resolver as coisas do nosso modo”?

Claro, cada um tem as suas perguntas e as suas respostas, mas existem muitas terrivelmente influenciadas por uma ideologia massacrante e portanto, de difícil identificação da influência (por isso chama-se ideologia), e isso tornas as coisas mais tristes.

Cada um cria seu inferno é verdade, mas ele não precisa ser tão corrosivo. O meu deve ter poucas e boas pessoas razoavelmente espaçadas apesar de cooperativas, pois mesmo boas pessoas quando amontoadas deixam vazar seu veneno por tudo o que é lado. Ops, Freud?! Essa é outra história.