sexta-feira, 18 de abril de 2014

As idas

Um casal de amigos vai para o Canadá este ano.
Um pós-doc dela. Maridão e pimpolhos (um da espécie humana e dois da felina) seguem junto.

A tristeza de saber que vamos ter dificuldades em nos ver - odeio sair de casa, quanto mais viajar - só é compensada pela satisfação de vê-los encarando essa experiência.
Se a migração é definitiva ou não só o tempo dirá, mas com certeza ir "para o estrangeiro" sem suporte e meio às cegas é um desafio por si só.

O fato deles terem encarado enfrentar esse medo com um filho pequeno e tendo o maridão praticamente que largar um emprego já é um feito em si, e sim, todos temos angústias perante o desconhecido e à saída da zona de conforto.

Fico feliz e esperançoso quando me deparo com pessoas que, mesmo que pouco, largam o status quo para abraçar o desconhecido, que no final, nunca é tão desconhecido assim.

Esperançoso em alguns elementos da espécie humana, ainda que pouquíssimos, que se lançam por outros ares além da linearidade da vida classe média e da simples ideologia do trabalho e acúmulo.
Feliz pela realização dos amigos, torcendo - mesmo que, como todo cético, saiba da nulidade de torcer - para que eles encontrem a realização e a serenidade.

Realização que não necessariamente seja a financeira (e creio que de fato não o é para ninguém), e sim a felicidade íntima e tranquila de quem cresce seus horizontes sem a necessidade de postar nessa ou naquela rede social as fotinhos de casal de comercial de margarina, cuja felicidade só existe no Facebook.

Fico extremamente feliz quando alguém, em especial do meu círculo de amigos, faz algo surpreendente, e quando digo isso, não me refiro a comprar uma Ferrari ou viajar para Marte, mas sim quando se deslocam, mesmo que pouco, do eixo da mediocridade massiva que permeia a humanidade.

Abrir mão é para poucos.
Largar a zona de conforto é para poucos.
Questionar ideologias é para poucos.

A real felicidade, que está longe do Instagram e congêneres, é para poucos, e nada tem a ver com sorrisos brancos, roupas caras e carros de luxo, ela está no íntimo e gera serenidade e não euforia ou deslumbre, afinal, a propaganda sempre quer nos vender algo, ou seja, mentir.

Claro que não é necessário escapar ao senso comum com uma migração, a maior viagem é interior. Questionar valores empedernidos, ou melhor, questionar nosso próprio senso de valores é um bom começo.

Espero não estar fantasiando a respeito de ninguém, mas o que importa é que agora eu estou feliz por eles.